A calçada portuguesa, considerada parte da nossa tradição e expressão cultural é tida como uma herança histórica do país. Em Lisboa, o actual Plano Director Municipal (PDM) do município prevê, nos próximos 10 anos, uma substituição gradual do pavimento. João Paulo Gonçalves, presidente da Associação de Exploradores de Calçada à Portuguesa (AECP), analisa a problemática e afirma que as autarquias pouco têm feito pela preservação e conservação da calçada.
Ana Clara | sexta-feira, 27 de Maio de 2011

«A preservação da calçada portuguesa pelas autarquias tem sido relativamente fraca». Quem o garante é João Paulo Gonçalves, presidente da Associação de Exploradores de Calçada à Portuguesa (AECP), que analisa ao Café Portugal o estado actual de utilização deste pavimento.
Este «desmazelo» por parte de muitos municípios começa a ser uma realidade cada vez maior. Em Lisboa, por exemplo, parte da calçada parece estar em risco. Em Dezembro de 2010, o vereador da mobilidade da autarquia de Lisboa, Fernando Nunes da Silva, afirmava que alguns pontos da cidade iriam ser alvo de intervenção, assegurando que «a calçada portuguesa não seria retirada dos bairros históricos».
Porém, Luísa Dornellas, chefe da Divisão de Formação da Câmara Municipal de Lisboa (CML), disse na mesma altura ao Diário de Notícias desconhecer em concreto o conteúdo do PDM. Porém, adiantou: «o que me parece razoável é que, em alguns pontos, a calçada seja trocada por pôr em causa a segurança dos cidadãos. Refiro-me por exemplo a locais com grande inclinação».
A verdade é que em 1986 foi criada uma escola municipal para que a arte não morresse e, há quatro anos, a CML anunciava que queria duplicar o número de calceteiros. Até hoje tal não aconteceu.
«Incompreensível»:
João Paulo Gonçalves, presidente da AECP, garante ser «incompreensível» o eventual fim da calçada portuguesa na capital, caso isso venha a verificar-se. «Em Portugal temos um pavimento diferente que impressiona todos os turistas que nos visitam, seja qual for a origem do seu país», considera. E salienta que «será preciso a boa vontade e o esforço dos nossos políticos tanto a nível do poder central como local».
«As câmaras municipais têm um papel essencial na preservação e na conservação da calçada. Uma manutenção séria e bem feita neste bem que deve ser preservado na capital portuguesa e restantes autarquias locais», explica.
João Paulo Gonçalves recorda que recentemente o Governo do Rio de Janeiro, no Brasil, solicitou pessoal português capacitado para dar cursos na área do calçamento. «É lamentável essa história de um pavimento confortável. Visto que noutros países também apostam neste nosso tipo de piso».
E frisa: «se cuidassem rigorosamente deste tipo de pavimento para o manterem certinho, estava tudo muito bem. Como não é o caso, as pedras que se vão soltando por todo o lado servem para as pessoas, nomeadamente as mais idosas, darem algumas quedas. O que implica custos. Assim, as autarquias acham que será melhor acabar com a calçada ou circunscrevê-la a zonas que possam ser mantidas», critica.
João Paulo Gonçalves adianta que a calçada portuguesa constitui uma manifestação da tradição nacional, uma expressão cultural e uma herança histórica.
«Esta tem um grande potencial técnico, bem como estético, é um produto 100% natural, ecológico, transformado de forma artesanal. Alia as características de durabilidade e grande beleza estética às vantagens económicas de poder ser restaurada sempre que houver necessidade», acrescenta.
Desta forma considera que este pavimento «tem uma importância cultural para o país, bem como a nível económico nas regiões de maior exploração da mesma».
Economicamente, a indústria da calçada portuguesa «tem uma grande importância em vários pontos, tanto a nível de empregabilidade nas zonas de exploração, uma vez que em grande parte delas esta exploração é a forma de sustento da maior parte das famílias. É uma grande fonte de emprego e garante desenvolvimento económico para o país, uma vez que a calçada portuguesa é usada em grandes obras nacionais e internacionais».
Por fim, o presidente da AECP refere que «certamente haverá ainda muito por fazer no que respeita à manutenção da calçada, nomeadamente no que toca à qualificação, à preservação e à colocação de pessoal nos quadros das autarquias para desenvolverem esses mesmos trabalhos».
O Café Portugal contactou a CML sobre a intenção de substituir parte da calçada portuguesa na capital e como funciona actualmente a escola de calceteiros. Mas até ao momento não nos chegou qualquer esclarecimento sobre o assunto.
Parte de noticia: http://www.cafeportugal.net
Fotos: Celso Gonçalves Roc2c